Há quem diga que o futuro é um lugar distante, feito de tecnologias que ainda não conhecemos. Mas pra nós, o futuro é agora. Ele começa quando uma moradora de Acari mapeia a rua onde a enchente chega primeiro, quando uma jovem de Jaboatão dos Guararapes decide transformar em dado o que antes era apenas dor, quando uma rede de jovens mulheres negras e periféricas se reúne para discutir o clima e termina falando de soberania, cuidado e sonho coletivo.
É nesse lugar entre o agora e o amanhã que o Instituto Decodifica atua. Nascemos na favela do Jacarezinho, na cidade do Rio de Janeiro, em um contexto onde o dado oficial raramente chega, mas onde o conhecimento pulsa e a vida resiste todos os dias. Nosso trabalho parte de uma certeza: quem vive o problema também produz a solução.
O Decodifica é uma organização dedicada à produção, comunicação e incidência política baseada em dados, com foco nas realidades e necessidades das periferias. Com uma equipe integralmente negra, acreditamos que os dados podem ser uma ferramenta poderosa para a transformação de realidades e promover a justiça racial.
A Geração Cidadã de Dados (GCD), metodologia que estrutura nosso fazer, é a tradução prática dessa ideia. Ela transforma a pesquisa em ferramenta de emancipação e o dado em linguagem de poder. Através dela, comunidades coletam, analisam e comunicam suas próprias evidências, desafiando as narrativas hegemônicas que sempre disseram quem somos e como devemos viver. Mais do que uma metodologia, a GCD é uma tecnologia social de governança e participação, que descentraliza o conhecimento, prioriza o protagonismo de grupos marginalizados, o uso de tecnologias livres e a valorização de múltiplas linguagens.
De 2020 pra cá, essa abordagem se multiplicou em diferentes iniciativas que constroem futuros possíveis. Um deles é o Retratos das Enchentes, que transformamos a memória das chuvas extremas em ferramenta de incidência. O Brasil enfrenta um agravamento das desigualdades ambientais, com populações periféricas, negras e ribeirinhas sendo as mais afetadas, e um apagão de dados sobre essas realidades. O Retratos cria um ecossistema de mapeamento cidadão dos impactos das enchentes, a partir das memórias e experiências dos moradores. Por meio da GCD, o projeto propõe a articulação de redes locais, formação de agentes comunitários e produção de dados acessíveis; também busca promover justiça ambiental e climática, fortalecer a organização popular e influenciar estratégias de adaptação climática mais justas e inclusivas. O que poderia ser apenas estatística vira narrativa: um instrumento de reparação, planejamento e exigência de políticas públicas.
Temos também o Manas, que forma jovens mulheres negras e periféricas em pesquisa cidadã, justiça climática, incidência política e ferramentas de advocacy. A participação ativa de meninas e jovens mulheres é essencial para o desenvolvimento comunitário e ao debate sobre a proteção do clima, mas dadas as desigualdades que vão desde a violência de gênero até a falta de recursos para articular reivindicações por justiça social, espaços formativos e que instrumentalizam esse grupo como aliado do processo de ativismo climático precisam ser fomentados. A partir das experiências que vivem no presente, elas criam novas possibilidades conectando ancestralidade, ciência e ação política.
Outros projetos nossos, como a Confluência das Favelas - que conecta organizações e lideranças locais na construção de uma agenda comum por justiça climática e fortalecimento democrático - e o Decodificando: Diálogos entre a Geração Cidadã de Dados, a LGPD e a Justiça Racial que democratiza o acesso à Lei Geral de Proteção de Dados, trazendo a justiça racial para o centro das discussões sobre privacidade e soberania informacional.
Esses projetos não são apenas iniciativas isoladas; são partes de uma infraestrutura de produção de dados, tecida por mãos que antes foram invisibilizadas, mas que hoje escrevem as próprias estatísticas. Cada mapa, cada entrevista e cada dado carrega a marca de quem vive o risco e, ainda assim, insiste em inventar futuro.
Mais do que uma metodologia, a GCD é uma tecnologia social de governança e participação. Ela nasce em um contexto de produção centralizada de dados e propõe descentralizar o conhecimento, priorizando o protagonismo de grupos marginalizados, o uso de tecnologias livres e acessíveis e a valorização de múltiplas linguagens. A GCD amplia a autonomia dos territórios para identificar demandas, monitorar políticas e complementar dados oficiais.
Trabalhar com dados, pra nós, é trabalhar com memória e a imaginação de futuros possíveis. É reconhecer que os números podem oprimir, mas também podem libertar, e que nas mãos certas podem se tornar um instrumento de disputa, reparação e criação de novas narrativas. É por isso que fazemos referência do nosso trabalho à decodificação; porque decodificar é traduzir e revelar realidades que são sistematicamente silenciadas.
Nosso compromisso é com a construção de um futuro justo a partir das periferias, em que o conhecimento circule entre lideranças comunitárias e gestores públicos, entre o território e o Estado. Um futuro em que a política pública reconheça a sabedoria popular como tecnologia.
Para além de produzir diagnósticos, o Instituto Decodifica se propõe a construir caminhos. Caminhos para que o enfrentamento à crise climática seja feito com justiça racial, de gênero e territorial; caminhos para que as soluções nascidas nas favelas e periferias sejam vistas não como exceção, mas como referência; caminhos para que os dados se tornem uma tecnologia social de governança, participação e autodeterminação, capazes de fortalecer a autonomia dos territórios e democratizar as decisões que definem o futuro do planeta.
Acreditamos que dados são ferramentas de poder, que se forem trabalhados com ética e pertencimento, apontam para políticas públicas construtivas, em ações coletivas e em novas linguagens de mundo. É isso que nos move: democratizar o dado e fortalecer o poder coletivo de decisão.